Acadêmicos indicam livros – os preferidos de Marta

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Durante a infindável quarentena (que deve chegar talvez a duocentena), apareceu um desafio de postar, em dias consecutivos, sete (apenas sete) capas de livros que a pessoa julgasse relevantes. Apenas a capa. Fui “desafiada” e não me contive. Além da capa, acrescentei um pequeno comentário sobre a obra.

Descobri que essa atividade tem a ver com uma história de leitura que pode revelar para o desafiado e para os desafiantes muito mais do que apenas um conjunto de imagens. Nem sempre serão obras-primas, mas na vida de cada um foram obras que representaram modificações na forma de escrever ou entender o mundo e a literatura.

Sem inibições, me ofereço como a primeira acadêmica desafiada. Poderia dizer à moda antiga que o faço porque sou enxerida, exibida ou simplesmente “zibida”. Que seja.

1

Vai longe o dia em que tudo começou, mas continua aqui próximo o encantamento da leitura de “Reinações de Narizinho”. A lamentar os brasileiros e brasileirinhos que passaram ao largo de Monteiro Lobato porque, segundo alguns professores, é “muito difícil de ler”, em especial porque escreve em português. Na capa primeira, no título primeiro, o amor primeiro.

2

No tempo em que os contos maravilhosos retornaram às bibliotecas (ignorados por quem acreditava que as fadas eram fator de alienação), Marina Colasanti trouxe um mundo de encantos, do imaginário recobrindo o inconsciente, de personagens e enredos ultrapassando os limites do racional e submergindo os leitores em inúmeros subtextos.

A poesia e o encantamento vieram de mãos dadas a partir de “Uma ideia toda azul” (1980) e “Doze reis e a moça no labirinto do vento” (1982). Até hoje continuam de mãos dadas tecendo maravilhas e “A moça tecelã” se tornou senhora de muitas mentes femininas, sua representante poética e sua bandeira.

3

Antônio Callado escreveu sobre o Brasil, com argúcia, com dedicação, com amor não correspondido. Nando, protagonista do romance-retrato-epopeia deste país, “Quarup” (1967) em sua expedição em busca do centro geográfico do país, encontra-o em um formigueiro. Saúvas – hoje diríamos ratazanas – consomem as forças do país. Quem o lê hoje?

Callado era realmente um gentleman e um homem dominado pelo amor a um país ingrato. De sua obra ficcional, minha paixão é por “Sempreviva”, uma história de amor e morte, de rebeldia e torturadores. Nela me encantam o lirismo rude, a linguagem poética e Herinha, a menina-natureza, nosso Puck (de “Sonhos de uma noite de verão”) tropical, a ninfa da vingança. Dessa paixão pelo romance nasceu o título de meu livro e de meu blog. Callado semprevivo.

4

São sete dezenas de pequenos textos encadeados em sequência de videoclipe, editados em 2001. Rufatto usa o cenário da cidade de São Paulo – que pode ser qualquer cidade – com seus habitantes quase invisíveis, com acontecimentos tipo trailer de filmes diferentes: ação, suspense, comédia, psicopatia, romantismo. A gente lê eles eram muitos cavalos (citação de um verso do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles) e descobre a vida prismática de quem (sobre) vive na desigual urbanidade atual. A gente ri, quase chega às lágrimas, se revolta, se interroga, busca respostas e descobre que mesmo em minúsculas, a literatura nos coloca diante do imprevisível, do desumano, dos conflitos e da vida como ela é.

5

O teatro. Ah, o teatro! Coração rasgado em cada espetáculo, sangue arterial alterado em cada fala, veias abertas em cada gesto. Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, deixou de herança – entre outras belezuras – este testamento, ditado em seu leito no hospital: “Rasga, coração”.

Em 1969, assisti à estreia em Curitiba. Desde então vive em mim. O projeto de revolucionário do filho ainda jovem a dialogar e conflitar com o pai, velho revolucionário, agora em casa, mas assumindo o protagonismo de uma revolução cotidiana, a que podemos fazer todos na vida real, comum, burguesa ou não. O coração humano que se rasga nas batalhas diárias, seja por pão, paz, protagonismo, pensamento livre ou partilhamento.

Ah, o teatro e os milênios de um legado de humanidade e denúncia.

6

Sándor Márai (1900-1989), um escritor húngaro, entrou em minha biblioteca e em minha leitura com este livro, “As brasas”, indicado por uma grande amigo e enorme pessoa, o Dr. Jamil Signorini.

Chegou com delicadeza no grupo de leitura da PUCPR – que durou dez anos de leituras semanais ininterruptas, um tempo e uma atividade das mais felizes de minha vida profissional.

Uma narrativa escrita com perfeição sobre a amizade, o amor, a honra, a palavra que revela e esconde. Dois amigos se reencontram 41 anos depois: o tempo, a memória e o ajuste de contas com um passado sempre presente chegam ao leitor com vagar e profundidade, num entrecruzar de vozes que identificam a melhor literatura.

Os detalhes, as sugestões e os fiapos de fala e memória são fios de uma teia que prende o leitor, que o fazem querer ler mais e outros livros do autor, que fazem valer demais o tempo de leitura investido.

Li várias obras dele, traduzidas para o português, e igualmente apaixonantes. Uma delas – Veredicto em Canudos (2002) – apresenta sob uma perspectiva diferente a nossa epopeia de Canudos, texto que nasceu da leitura entusiasmada do livro de Euclides da Cunha, realizada por Sándor Márai. “As brasas” é uma obra-prima da literatura.

7

Deixei para o final da lista a paixão mais forte, mais duradoura, mais vital. A obra total de Guimarães Rosa! “Grande sertão: veredas”: primal, inaugural, épico, transcendental, beleza perfeita. Citado e transcitado e trescitado por dez entre dez bons leitores. Paixão para a vida inteira, de mesa e cabeceira.

Para não repetir, trago a capa de uma edição primorosa, com a ilustração do incrível e maravilhoso Poty. Basta comparar com as capas posteriores, para ver o quanto perdemos em desafio e beleza em troca da tal modernização.

Os contos antológicos do volume, lançado em 1946, (salientando “Burrinho pedrês”, “Sarapalha”, “Duelo”, “São Marcos”, “Conversa de bois”, “A hora e a vez de Augusto Matraga”) desafiam até hoje nossos padrões de narrativa, desafiam a língua que pensamos conhecer, desafiam o pouco conhecimento que temos deste país, desafiam a literatura brasileira, inauguram rios caudalosos de outras obras que tentam se aproximar dela. Assunto para muitos e muitos posts. Poty traduziu como nenhum outro artista plástico a essência dessas narrativas. Amor geral pela obra, com coração em pedaços por não colocar também a trilogia de “Corpo de baile”. Ave, Guimarães Rosa!

Os que escrevem deveriam te saudar. Os que escreverão talvez venham a te esquecer (a geleia geral de nossa cultura de fa$chada sequestra e esquece de nossos autores mais significativos).

 

Foto: arquivo APL
Imagens: reprodução capas

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