EF- Fale um pouco de sua infância, do Recife em que nasceu.
PF – Há algum tempo, com profunda emoção, visitei a casa onde nasci. Pisei o chão em que me pus de pé, andei, corri, falei e aprendi a ler. O mesmo mundo que foi o meu primeiro mundo que se deu à minha compreensão pela leitura que dele fui fazendo. Lá, reencontrei algumas árvores da minha infância. Reconheci-as sem dificuldade. Quase abracei os grossos troncos, que eram os mesmos jovens troncos da minha infância. Então uma saudade que costumo chamar de mansa ou de bem comportada, saindo do chão, das árvores, da casa, me envolveu cuidadosamente.
Na casa mediana em que nasci, no Recife, à sombra das árvores eu brincava e, em seus galhos mais dóceis à minha altura, eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para riscos e aventuras maiores. A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, seu terraço, o sítio de avencas de minha mãe, o quintal amplo, tudo isso foi meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus de pé, andei, falei.
Os textos, as palavras, as letras daquele contexto se encarnavam no canto dos pássaros – o do sanhaçu, o do olha-pro-caminho-quem-vem, o do bem-te-vi, o do sabiá; na dança das copas das árvores sopradas por fortes ventanias que anunciavam tempestades, trovões, relâmpagos; nas águas da chuva brincando de geografia: inventando lagos, ilhas, rios, riachos. Os textos, as palavras e as letras daquele contexto se encarnavam também no assobio do vento, nas nuvens do céu, nas suas cores, nos seus movimentos, na cor das folhagens, na forma das folhas, no cheiro das flores – das rosas e jasmins -, no corpo das árvores, na casca dos frutos, na tonalidade diferente de cores de um mesmo fruto em momentos distintos: o verde da manga-espada verde, o verde da manga-espada inchada, o amarelo esverdeado da mesma manga amadurecendo, as pintas negras da manga mais além de madura, na relação entre estas cores, no desenvolvimento e no seu gosto. Foi nesse tempo, possivelmente, que eu, fazendo e vendo fazer, aprendi a significação da ação de amolengar.
Daquele contexto – o do meu mundo imediato – fazia arte, por outro lado, o universo da linguagem dos mais velhos, expressando as suas crenças, os seus gostos, os seus receios, os seus valores. Tudo isso ligado a contextos mais amplos que o do meu mundo imediato e de cuja existência eu não podia sequer suspeitar.
Até os meus sete anos, talvez, o bairro do Recife onde nasci era iluminado por lampiões que se perfilavam, com certa dignidade, pelas ruas. Eram lampiões elegantes que, aos cair da tarde, se “davam” à vara mágica de seus acendedores. Eu costumava acompanhar do portão de minha casa, de longe, a figura magra do acendedor de lampiões de minha rua, que vinha vindo, andar ritmado, vara iluminadora no ombro, de lampião a lampião, dando luz à rua. Uma luz precária, mais precária do que a que tínhamos dentro de casa. Uma luz muito mais tomada pelas sombras do que iluminadora delas. (p.18-19)
Me lembro das notes em que, envolvido no meu próprio medo, esperava que o tempo passasse, que a noite se fosse, que a madrugada semiclareada viesse chegando, trazendo com ela o canto dos passarinhos “amanhecedores”.
EF- O senhor é tão poético. Que ligação tem com a poesia?
PF- Adoro a poesia, gostaria de ser poeta, enquanto capaz de fazer o tratamento poético das palavras. Mas eu me acho poeta enquanto sou capaz apenas de sentir o pingo da neve, a flor abrindo; mas não sou possivelmente poeta enquanto capaz de dar forma ao sentido e ao sentimento do mundo.
EF- Eu discordo um pouco, porque uma pessoa que diz coisas como “no conhecer não se pode desprezar o adivinhar” é também um poeta.
PF – Inclusive, a poesia adivinha, não é?
FAJARDO, Elias. Paulo Freire: “Conhecer não é adivinhar, mas tem a ver com adivinhação.”
Revista do Brasil, RJ, ano2, nº 4, 1985, p.12-19.
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INFÂNCIA
Carlos Drummond de Andrade
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
Lia a história de Robinson Crusóe,
Comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
A ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
Chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
Café gostoso
Café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
Olhando pra mim:
— Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo!
Lá longe meu pai campeava
No mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
Era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
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MUNDO PEQUENO I
Manoel de Barros
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,
os besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa.
Ele me rã.
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.
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MESTRES
Marta Morais da Costa
Minhas árvores da infância em outros verdes
mais enverdecem nos versos dos mestres.
Minhas águas da infância, em ouro e peixes,
mais clareiam nos versos dos mestres.
Meus pássaros da infância em cores e voos
nos versos dos mestres melhor entoam.
A sequestrada casa da minha infância
libera-se nas imagens dessa poesia.