Marinho Gellera

Marinho Gellera

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Mário Amadeu Gallera, o Marinho, nasceu dia 4 de março de 1948, em Araraquara, no interior paulista, seis anos depois de seu irmão, Mário Sérgio Gallera. Ambos passaram seus anos verdes naquele tempo em que o telefone ainda não havia chegado à cidade e todo mundo se tratava pelo nome.

Todos conheciam Seu Amadeu Gallera, o pai de Mário Amadeu e Mário Sérgio, casado com Dona Adelina Dorsa Gallera. Ele era o dono da Farmácia Minerva, que abria as portas para a rua 9 de Julho, a popular Rua 2. No mesmo terreno, nos fundos, ficava a primeira casa da família. Anos mais tarde, a família mudou-se para outro endereço na mesma rua. Muito perto da nova moradia, Seu Amadeu montou a Farmácia Técnica. Estudou Técnica de Farmácia no Instituto Pinheiros, em São Paulo, e trabalhou na Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araraquara, onde desempenhou funções até se aposentar.

Dona Adelina Dorsa Gallera, a mãe, além de cuidar da casa e da família, destacava-se como cantora no Coral Araraquarense, regido pelo maestro Lysanias de Oliveira Campos, e no Coro da Igreja Santa Cruz que costumava se apresentar nas missas e casamentos. Marinho lembra-se muito bem disso pois, ainda criança, em companhia da mãe, ia aos ensaios e apresentações do Coral e do Coro.

O Coral cantava diversas músicas populares e árias de óperas. Nos ensaios, compenetrado, ele desempenhava um papel fundamental. Sentava-se ao lado da pianista acompanhadora e olhava o tempo todo para ela, aguardando o sinal para virar as páginas da partitura.

O Coral Araraquarense era muito conceituado no interior de São Paulo. Volta e meia, recebia convite de alguma companhia para fazer o coro em óperas de Puccini, Mascagni, Verdi, Bizet e outros. E lá ia o Marinho, viajando pela região junto com o Coral, que contava com nada menos do que quatro representantes da família Dorsa – Adelina, Marise, Yolanda e Luiza – além do tio Nelson Gullo e do primo Marcos Garita.

Marinho entrou em contato com a música popular brasileira ouvindo a Rádio Cultura Araraquara. Mas não só. O repertório do Coral também continha peças populares de autores famosos como Heckel Tavares, Waldemar Henrique, Joubert de Carvalho e muitos mais daquela época. Canções que, de tanto ouvir, Marinho ia tirando para cantar ao violão ou para acompanhar a bela voz de soprano de Dona Adelina e as tias em memoráveis apresentações solo.

Quando tinha dúvidas, recorria a um amigo músico, Paulo Ferrante, o Paulão, exímio tocador de piano, flauta e violão, generoso em dividir o que sabia com quem quisesse saber. Outra fonte de informações preciosas era José Carlos Arone, baixista da Orquestra Nelson de Tupã, em que Marinho dava suas canjas, cantando o melhor da MPB de então, no final dos bailes que animavam o Clube 27 de Outubro, em Araraquara, e outros no interior do estado.

Por falar em clubes, é importante lembrar que Marinho brilhou com a camisa do time de voleibol da Ferroviária de Araraquara e, por diversas vezes, defendeu as cores da seleção da cidade em torneios estaduais.

Depois de fazer o ginásio e cursar o primeiro ano do Científico no Instituto de Educação Bento de Abreu, de Araraquara, Marinho mudou-se para São Paulo e ali concluiu o ensino médio no Colégio Estadual Macedo Soares. Enquanto estudava, mantinha contato com amigos e parentes de Araraquara que moravam em São Paulo. Amigo pessoal de Luiz Antônio Martinez Correia, Marinho logo começou a frequentar o teatro do irmão deste, José Celso Martinez Correia, considerado um dos mais revolucionários artistas brasileiros de todos os tempos. Conheceu também outro conterrâneo ilustre, o então muito jovem escritor Ignácio de Loyola Brandão que, anos mais tarde, viria a se casar com Márcia Gullo, prima de Marinho.

Nessa época, Rosa, uma das tias de Marinho, cantava na noite paulistana e namorava o Toninho, um dos fundadores do lendário conjunto Demônios da Garoa, grupo que fazia a interpretação mais conhecida e marcante dos sambas de Adoniran Barbosa. Marinho conheceu os Demônios da Garoa no auge, ainda com sua formação original.

Foi assim, entre o teatro e a música, que Marinho terminou o Científico em 1967, no ambiente fervilhante da capital paulista, que ele considerava por demais agitado e sufocante. Em 1968, fez vestibular para o curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Paraná e passou. Esse fato abriu para ele um novo caminho que haveria de mudar definitivamente a sua vida. Marinho foi morar em Curitiba.

Em 1968, Curitiba tinha 600.000 habitantes, era uma cidade aprazível. Reunia as vantagens de ser, ao mesmo tempo, grande e pequena. Grande, como centro do poder de um estado progressista, sede de uma das primeiras universidades brasileiras e ponto de confluência de correntes migratórias provenientes do mundo inteiro. Pequena, como um lugar onde as pessoas se conhecem, os vizinhos se tratam como se pertencessem à mesma família, uma metrópole capaz de praticar gentilezas provincianas.

Foi esta Curitiba que Marinho Gallera encontrou aos 20 anos de idade. Viveu por muitos anos em Curitiba e participou – com o seu talento e a sua arte – de todas as mudanças que levaram a cidade a se tornar o núcleo de uma região metropolitana com mais de 3 milhões de habitantes.

O começo foi na rua da Glória, onde Marinho foi morar numa república de estudantes que abrigava outros sete jovens universitários de Araraquara – Chico, Ronaldo, Jurandir, Fuad, Zé Pedro, Fabinho e Cortez.

A vida universitária não interrompeu o trabalho artístico. Ainda em 1968, Marinho Gallera venceu o Festival da Canção de Araraquara e começou a se relacionar com o pessoal da música e do teatro curitibano. A convite de Oraci Gemba, um dos mais respeitados diretores da cidade, compôs as músicas e atuou como violonista e cantor em peças como “Chapéu de Sebo”, “Auto de Fé Ocidental”, “A Torre em Concurso” e “Arena Conta Zumbi”.

Ao mesmo tempo, participou de várias edições do programa experimental de televisão “Módulo 4”, dirigido por Rodrigo Cid, na TV Iguaçu Canal 4, e fez sets como violonista e cantor na casa noturna “Cascata da Sereia”, revezando com o então já famoso compositor Lápis.

Lápis era parceiro de Paulo Vitola. Em 1968, ambos já haviam representado o Paraná no Festival “O Brasil Canta no Rio”, da TV Excelsior, e no “Festival Internacional da Canção”, da TV Globo.

É aí que entra em cena o jornalista Aramis Millarch, o homem que sabe tudo o que acontece no mundo artístico da cidade. Paulo Vitola vai à “Cascata da Sereia” em companhia de Aramis para ver o show do Lápis. No momento em que os dois entram no bar, quem está tocando e cantando é Marinho Gallera. O responsável pelas apresentações é Aramis Millarch. Marinho Gallera e Paulo Vitola finalmente se conhecem. Começa ali a parceria que haveria de render centenas de canções.

Um pouco mais adiante, no final de 1971, Aramis Millarch consegue trazer Vinicius de Moraes, Toquinho, Marília Medalha e o Trio Mocotó para fazer o show de inauguração do Teatro do Paiol, que viria a se tornar um dos mais respeitados templos da Música Popular Brasileira. Marinho conta que, neste período, foi escalado para fazer companhia a Vinicius na noite curitibana. Coisa de alta responsabilidade, só para maiores, pois invariavelmente a noite, para Vinicius, sempre terminava na manhã seguinte. Antes de sair do Bac-Tuc, então um dos bares mais animados de Curitiba, para acompanhar o poeta até o hotel, Marinho assistia a uma cena reprisada todas as manhãs: Vinicius cumprindo o ritual de colocar os óculos escuros para proteger os olhos do sol que já brilhava alto sobre a cidade.

No ano seguinte, Paulo Vitola é convidado por Aramis a escrever, em parceria com o jornalista Adherbal Fortes de Sá, uma peça musical para contar e cantar a história de Curitiba no Teatro do Paiol.

Foi assim que nasceu o espetáculo “Cidade Sem Portas”, primeira incursão do compositor Paulo Vitola nos meandros de uma Curitiba de outros tempos, uma cidade que não existia mais.

A peça foi encenada com grande sucesso e permaneceu em cartaz por dois anos, girando pela cidade, de bairro em bairro, em palcos que se improvisavam nas escolas, igrejas, clubes e sociedades operárias.

Em 1974, começou o Movimento Atuação Paiol, o MAPA, que reunia os compositores da cidade todas as semanas, às segundas-feiras, no Teatro do Paiol, e realizou vários shows de grande sucesso até o final de 1976. Foi um período fecundo para a parceria Gallera/Vitola. A dupla produziu dezenas de canções e reuniu uma seleção delas no espetáculo “Diário de Bordo” que, encenado no Paiol, deixou sua marca de qualidade na cena musical de então.

Em 1977 e 1978, Marinho Gallera e Paulo Vitola são convidados para criar as músicas do espetáculo “Curitiba Velha de Guerra”, criação coletiva do Grupo Prisma, com direção geral de Antônio Carlos Kraide. Foram, ao todo, oito canções que faziam a abertura, os intervalos entre os sete quadros da peça e o encerramento.

Cada quadro representava determinado tipo de bar da cidade, com suas características, personagens e gêneros de conversa. A peça foi encenada no Teatro do SESI, as canções receberam o Prêmio Gralha Azul daquele ano e o espetáculo foi selecionado para o Projeto Mambembão, do Ministério da Cultura, com direito a apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro.

No final do ano de 1978, com o patrocínio da Múltipla Propaganda e Pesquisa, Marinho Gallera e Paulo Vitola gravaram em uma semana, no Sir Laboratório de Som e Imagem, uma seleção de músicas dos espetáculos “Diário de Bordo” e “Curitiba Velha de Guerra”. O álbum, denominado “Onze Cantos” – disponível para audição e download no site www.nosdepinho.com.br – foi o primeiro LP da dupla e contou com texto de apresentação do poeta Paulo Leminski.

Em seguida, Gallera e Vitola juntaram-se ao multimídia Luiz Rettamozo para escrever o memorável espetáculo musical infanto-juvenil “O Bichomem Como é Que Será?”, encenado no Teatro do Paiol e em muitos outros palcos de Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre, com patrocínio do Bamerindus.

A montagem original teve o ator Luiz Melo como protagonista, a atriz Bernadete Brandão e os artistas de rua do “Esquadrão da Vida”, violão e voz de Marinho Gallera, todos sob a direção geral de Ari Pára-Raio, tão extraordinário quanto esse espetáculo, primeiro e único do Grupo O Pinhão, recém-criado e, não se sabe por que, precocemente extinto.

Marinho Gallera e Paulo Vitola sempre trabalharam como parceiros, desde 1968. Mas isso não impediu que ambos realizassem projetos individuais ou em parceria com outros compositores.

Em 1972, Marinho Gallera empunhou a viola ao lado do violonista e cantor Paulo Cesar Botas em diversas apresentações, interpretando uma seleção de grandes compositores brasileiros.

Muito requisitado pelos principais diretores teatrais de Curitiba, Marinho criou ou dirigiu a trilha musical de vários espetáculos importantes como “Chapéu de Sebo”, “Auto de Fé Ocidental”, “A Torre em Concurso”, “A Viagem de Um Barquinho”, “Peter Pan”, “Locomoc e Milipili”, “Os Saltimbancos”, “A Árvore dos Mamulengos”, “A Paixão Segundo Cristino”, entre outros.

Junto com Paulo Cesar Botas, Marinho gravou “A Paixão Segundo Cristino”, obra composta por Geraldo Vandré, em um LP produzido no Sir Laboratório de Som e Imagem, com arranjos do maestro Gaya.

São também assinadas por Marinho Gallera as partituras de um filme de Sylvio Back, “Curitiba, Uma Experiência em Planejamento Urbano”, e de dois filmes de Valêncio Xavier, “Centenário da Imigração Italiana” e “A Obra Monumental de Poty Lazzarotto”, todas em parceria com Paulo Vitola.

A dupla está presente em centenas de jingles comerciais e trilhas sonoras de vídeos, entre os quais merecem destaque um jingle para o Café Damasco que permaneceu no ar por mais de 30 anos e um vídeo para apresentar ações ambientais do Paraná no evento “Japan Flora”.

De par com a obra realizada em parceria com Paulo Vitola, Marinho criou com Paulo Leminski uma coleção de belas canções, cujas partituras constam do Songbook de Leminski e foram gravadas por Gallera no álbum “Fazia Poesia”.

No começo de 1980, a convite da Fundação Cultural de Curitiba, Marinho Gallera e Paulo Vitola escreveram a peça “Ó Curitiba Nossa Tribo Salve Salve” para inaugurar o novo Teatro de Bolso da Praça Rui Barbosa.

Espécie de revista musical, a peça reuniu os grandes comediantes do teatro curitibano – Edson D’Ávila, Odelair Rodrigues, Jane Martins, Narciso Assumpção, Hugo Duarte, Rogério Delê, Danilo Avelleda e Cida Alves – sob a direção geral de Maurício Távora.

Grande parte da trilha musical desse espetáculo está contida no álbum duplo “Curitiba, Cidade da Gente”, também gravado no Sir Laboratório, com diversos arranjos assinados pelo maestro Lindolpho Gaya e a participação especialíssima de Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, uma das mais importantes duplas artísticas dos programas de auditório na era de ouro do rádio na cidade.

Todas as músicas desse álbum duplo, lançado em 1983, também podem ser ouvidas, baixadas e gravadas no site www.nosdepinho.com.br.

Embora tenham ficado distantes dos palcos durante muitos anos, Marinho Gallera e Paulo Vitola seguiram trabalhando em parceria e foram, gradativamente, amadurecendo a ideia de publicar o livro “Chucrute e Abacaxi com Vinavuste”, com dois CDs encartados: “Cidade Sem Portas e Cidade da Gente” e “Velhos Amigos”.  “Velhos Amigos” teve direção musical e arranjos de Marinho Gallera e foi gravado no estúdio da Synchro, com 15 músicas da parceria Gallera/Vitola.

O livro foi lançado em 2010, com um show no Teatro do Paiol e as canções do CD “Velhos Amigos” também estão disponíveis para audição, download e gravação no site www.nosdepinho.com.br.

O livro de partituras “Nós de Pinho e Outras Estórias” e o site foram concebidos para celebrar os 50 anos de parceria de Marinho Gallera e Paulo Vitola, 1968-2018.

Há cerca de 7 anos, Marinho passou a morar em Ponta Grossa, em companhia dos filhos, Athon, Zoltan e Luísa, e com todo o apoio das filhas Helena e Isabel, que moram em São Paulo. Seguiu trabalhando com a criação de canções enquanto a saúde permitiu.

Lamentavelmente, nesta segunda-feira, dia 9 de março, cinco dias depois de completar 78 anos de idade, Marinho Gallera foi embora. Deixa obra vasta que merece lugar especial entre os melhores compositores brasileiros. O mais curitibano dos paulistas, Marinho foi reverenciado em vida por todos os artistas que tiveram a honra de trabalhar com ele. Hoje é lembrado por uma legião de amigos e admiradores. Fica a lembrança do bom-humor, do olhar expressivo, do sorriso franco. Fica uma saudade sem tamanho. Fica Marinho Gallera, um nome marcado para sempre na história da cultura curitibana, paranaense e brasileira.

 

 

Foto: Dico Kremer

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