Antes de mais nada, preciso dizer o quanto fiquei feliz de ler o Leo, ler seu novo livro em primeira mão. Para quem ainda não conhece, Leo é pai da clara / poeta / sambista / e punk.

Dos seus títulos anteriores, dois deles (excelentes, por sinal), também foram publicados pela Telaranha. A Paulista não termina na Consolação, propondo instigante percurso poético pela avenida mais famosa de São Paulo, quiçá do Brasil. Um hospício para chamar de meu, é um poema dramático-narrativo que aborda a loucura, trazendo uma galeria de personagens marginais para o centro da página. A vida em duas sílabas, por sua vez, é esta beleza que você (leitora, leitor) tem nas mãos. Versa sobre o processo de gestar uma maternidade, gestar uma paternidade, gestar uma filha. Gestar o diário de uma gestação. Gestar um livro de poemas. Porque, afinal, todo diário sonha ser livro.

Um filho pode que é a obra mais linda e complexa e inesgotável que mãe e pai escrevem juntos. A gravidez sempre é um longo poema, um verdadeiro épico, engravidar também é parir / superstições dantescas. Uma gravidez planejada ou não planejada, o que importa? No fundo,ninguém está preparado / para nada nunca never niente. Sendo mais específico, este livro percorre o período que vai desde a revelação de que Jéssica (a companheira do Leo) está grávida até os dois anos da filha deles. De modo que acompanharemos pari passu a vida desse núcleo familiar se dando em duas e em muitas sílabas mais.

Poema a poema, passamos pelos nove meses da barriga crescendo, pelas cólicas, pelo primeiro ultrassom. E vêm os sins, as projeções, as preocupações, receios reais e ilusórios. Medo de aborto espontâneo, medo do desconhecido. Depois, o momento da escolha do nome: é claro que é clara / o nome mais brilhante de todos. E o parto. E a primeira noite em casa / longe do hospital / longe da campainha para chamar a enfermeira. E o casal, com a banheirinha, dando banho em sua bebezinha. E trocando fraldas.E o pai que agora não tem como saber a próxima vez / que vou pisar / num cinema. A mãe entrará nos movimentos físicos e emocionais do puerpério. E, quando menos esperarmos, para a menina será a hora de ir para a escola. E agora a introdução alimentar. E os dentes nascendo. E as palavras todas em duas sílabas: babou, babau, dente, naná, mamá, mamão, cocô, xixi. Até que chega a terrível despedida: adeus chupeta.

E o medo sempre a retornar. O medo num pai — um pai na acepção mais bonita, sensível, participativa e profunda da palavra — sempre se prolonga e se renova, mas é um medo que necessariamente precisa se transformar em coragem, em responsabilidade. Sabe, somente um poeta pai — na acepção mais bonita, sensível, participativa e profunda da palavra — poderia escrever este livro. Este livro que, vale a pena dizer, é tudo verdade. Por isso, viva os poemas / que não têm medo / da palavra coração. Viva a poesia que nasce e bate feliz / no meio do caos.

Nesse pequeno núcleo familiar, entre os irmãos que antecederam a chegada da Clara, vamos descobrir que Jumanji / uma jiboia que rasteja / entre as prateleiras / de livros, graças a Deus, é uma planta e não uma cobra. Samba não é apenas o estilo musical que mais toca no livro, mas também o nome do cãozinho da casa. Assim como Carlos Cachaça não é exatamente o mestre gênio da raça, mas também a alcunha pela qual o passarinho, pau d´água de respeito / baluarte da sacada, é chamado.

Na história de amor entre Jéssica e Leo, que está subjacente nas páginas de A vida em duas sílabas, vemos brilhar também o amor pela música popular brasileira. O carnaval atravessa essas páginas como uma escola de samba atravessa a avenida. Direta ou indiretamente, este livro também faz uma homenagem ao carnaval, ao samba, à brasilidade e aos poetas do nosso país. E Leo faz isso com muito garbo e suingue, escrevendo solto, escrevendo fácil (e escrever assim é difícil, ô se é). Em cada verso, Leo é um poeta totalmente honesto, franco e bonito.

Mães e pais de primeira viagem, não deixem de ler este livro. Mães e pais já experientes, leiam este livro. Sintam ou não saudade de tudo isso, leiam este livro. Vocês que desejam ter filhos, vocês que não desejam ter filhos, vocês que gostam de poesia, que não gostam de poesia, que gostam de samba, que não gostam, que gostam ou não de carnaval, leiam este livro. E repitam comigo esta palavrinha de duas sílabas: viva!

  • Autor: acadêmico Luiz Felipe Leprevost
  • Foto: Cintia Monteiro
  • Imagem: divulgação